ENSAIO

Guilherme Teixeira





Algumas notas sobre a desordem, ou do poder ser frustração



Aqui falamos sobre a autonomia das coisas que podem ser disfuncionais



Recentemente vi uma imagem, acho que no Instagram, que ilustrava por cima de uma malha hexagonal a relação da massa de um astro com o campo gravitacional à sua volta, começando pelo sol e então neutrinos para, enfim, chegar à sua indiferença. Na construção de toda relação ainda há aquele ensejo que nos recusamos a escutar e não damos ouvidos, que toma como dado todo acúmulo de desesperança, aludindo às nossas desexistências; acho que foi a partir dessa imagem que percebi que a realidade, assim como a concebemos, é feita, se não para articular toda e qualquer narrativa possível, para justificar esse nosso ser pequeno.


E a gente fecha os olhos... Encara aquele vermelho que só o sol sobre pálpebra constrói.



Um ver então se anuncia… um olho olha pra trás, se engole com o mundo, abre a boca, se prepara para dizer tanto; desiste, olha pra baixo: escreve e em um garrancho pisa em falso, se estatela e tudo é vogal aberta que vem da vontade que nunca se fechou:

“AHHHH.”



Aqui, neste lugar onde escrita escorre, há algo meio que perdido entre o que seria o corpo, o que seria o texto, o que seria o espaço, e o convite a todos para contemplar a morte de algo útil.
“Que tragédia!lgo útil se extingue! Algo útil desexiste! Algo útil já não é!” E meu joelho se abre, sustentando corpo; acordo e sono se faz tudo, há nomes que não são nossos e nunca serão e um olho ensinado a ver se engole e descansa.
Visão se anuncia, se faz peso, se faz grito, se faz nome, espaço, presença, futuro e então som e então sentido enquanto acústica de uma palavra estrangeira - algo inútil tem de morrer.


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“Muito obrigado a todos presentes, é uma honra recebê-los. Sim, estamos sim. Não, infelizmente acabou o chá” e a frase retumbava, presa em microfonia. Algo aqui não está certo: os periódicos se repetem, os dias se repetem, os números se repetem, e as vozes continuam sendo se não as vozes que, por meio do nada e de si, orientavam aqueles passos em direção à palmas (que podiam ser silêncio), e certeza sobre o lugar (se o tempo fosse outro) e certeza de que há como que tudo e, literatura não dá mais conta - e algo inútil tem de morrer.
Algo aqui não está certo: “Infelizmente o chá acabou”, engasgavam com a gente, dando nomes a tudo que nos circundava e nos era semântico e que agora eram senão outro nome tornado verbo que é como grito em pradaria; se afasta dali;
E a vontade de palavra toma então forma, então onda - e alguns diriam sentido - enquanto observamos essa cena que se desdobra, esse palco que se engole, essa figura que se desdiz e essa platéia que se observa…. daqui observamos essa cena e nada simula... é como se não importasse quanto esforço quanta vontade, quanta necessidade, quanto movimento que fosse pra trás ou pra frente, éramos e nada ali supria necessidade que cena enseja; a necessidade de estar, a necessidade do tentar engolir, aquele infinito que nunca boca nenhuma intentou, aquele enquanto que não está certo não funciona, engasga, trava, buga e as metáforas não cantam, o verbo falha, literatura sucumbe, cessa….
Meu joelho se abre, sustentando corpo; desperto e o sono se faz tudo, há nomes que não são meus, e nunca serão e a literatura cessa, a literatura tenta, a literatura sucumbe, o verbo falha, buga e as metáforas não dão conta, engasgam, travam, não funcionam, um se faz ver tropeçar em si mesmo e algo aqui não está certo. Futuro…. presença, espaço, nome, grito, peso: Um ver então se anuncia…

olhando pra trás,




se engole com o mundo.




*Guilherme Teixeira  [São Paulo, 1992] é um escritor, curador e editor baseado em São Paulo, Brasil. Em sua pesquisa, fala sobre enunciações e os outros nomes que as coisas demandam hoje. Entre as instituições com as quais já trabalhou destacam-se CCSP e Videobrasil, além de galerias e escritórios de consultoria. Entre suas curadorias destacam-se PAREDÃO [CCSP], Ontem Foi Um Dia Longo [MARP], O Grande Susto [ESPAÇO], Ruído e Ausência Contínuos [Galeria Sancovsky], A Imensa Preguiça [Galeria Sancovsky] entre outras. Teixeira é também editor do periódico O TURVO.


MJOURNAL ED.007- UMA IMAGEM CURA MAIS DO QUE MIL PALAVRAS.