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© Elias Marcou / Reuters

Alfaiataria Progressista: AOC generation na cadeira da diretoria






Seja como uma reação ao neoconservadorismo, seja pela força das juventudes que passam a ocupar cargos de liderança, o progressismo assume uma nova gama de gestos e signos. A alfaiataria se desconstrói em novas possibilidades de modelagem, cores e tecidos, assumindo de vez o papo com o guarda-roupa esportivo, com o moletom e com o streetwear.


Quem acompanha as Matutas e o MJournal sabe que o novo progressismo anda mexendo com nossos imaginários de poder — mesmo que, em países assolados por governos conservadores e excludentes, como é o caso do Brasil, ele assuma um caráter aspiracional, por enquanto. Trocando em miúdos, essa leva de políticas liberais não-autoritárias ascendendo pelo mundo têm trazido novas possibilidades e posturas para os cargos de liderança. Enquanto Meghan Markle e o príncipe Harry escancaram o deslocamento da família real na imagética aspiracional de poder, a série “Succession” faz do #EatTheRich” o ethos de uma das dramédias mais populares dos últimos anos. Desse lado de cá, os presidentes do México e Argentina selaram um acordo de novo eixo progressista, no qual pretendem romper com o passado recente e a herança dos últimos governos. Após o líder conservador Sebastián Piñera quase ter sofrido um processo de impeachment, a população chilena foi às urnas e elegeu o ex-líder de movimentos estudantis Gabriel Boric, o presidente mais jovem da história do Chile. Nos primeiros meses de mandato, ele já se reuniu com a líder da Assembleia Constituinte, a doutora em literatura e linguística e mapuche Elisa Loncón para conceder ao grupo maior autonomia. Ele também formou um gabinete onde as mulheres são maioria, há maior representatividade dos estados e o aceno ao mercado financeiro não ficou de fora.

Nesse cenário, as dinâmicas de gestão já não se alinham a posturas opressoras e/ou excludentes. Na verdade, cada vez mais instituições percebem que diversidade leva a bons resultados, que o léxico político-econômico precisa comportar novos termos e modelos e que, bom, a gente não precisa de um terno sisudo para mostrar competência em uma determinada área.
A turma despojada do Vale do Silício teve lá a sua contribuição nessa, mas pensa aqui com a gente: depois do Occupy Wall Street, da Marcha das Mulheres, do Black Lives Matter e dos movimentos sociais que agitaram a COP26, daria mesmo pros ocupantes de cargos de chefia deixarem de olhar pras ruas? E vale lembrar que, até 2025, 75% da força de trabalho pelo mundo será millennial, o que significa que essa geração, que testemunhou as belezas e agruras da economia colaborativa, encheu a internet de textões engajados, contestou hierarquias e entendeu o valor das comunidades logo, logo estará em mais cargos de liderança. E vai orientar uma geração que defende a diversidade com unhas e dentes, não tem paciência pra lero-lero e faz piada com esse negócio de “trabalhe com o que ame e não tenha de trabalhar um só dia da sua vida.” Isso significa que a empatia e estruturas mais horizontais ganharão cada vez mais valor nas empresas, mas a gente não precisa ter a pretensão de querer salvar o mundo ou inserir propósito em tudo o que fazemos — às vezes, trabalho é só sobre trabalho, e, sério, tá tudo bem mesmo. A tônica do TikTok ganhou a internet de vez: ria de si mesmo, concilie perspectivas diferentes e parta pra ação, porque o colapso climático e a derrocada do capitalismo como conhecíamos estão logo ali. “Agroecologia”, “renda básica universal” e “economia circular” já não são termos restritos a corredores de universidades.




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Stella Mccartney / Divulgação

 
Alinhados a esse desejo de reimaginar espaços de poder, a alfaiataria e o streetwear fizeram as pazes de vez. Por isso, na próxima reunião do Zoom, prepare-se para dar uma engomadinha no pijama, pero no mucho. Não é que aquela camisa muitíssimo bem-cortada tenha perdido seu lugar, mas assim como a galera que ocupava os altos escalões das companhias de sucesso, ela percebeu que precisa ouvir as ruas, pluralizar seus discursos e, poxa, entender que tá tudo bem se amarrotar de vez em quando. Em contraposição aos velhos líderes que gritam e recorrem à verborragia, a "alfaiataria masculina" se suaviza em texturas reconfortantes e paletas de cores alegres. Ela também repensa comprimentos: vem em croppeds e bermudas, abraçando a codificação queer e o culto ao corpo tido como atlético — o que acaba reforçando ideais de magreza e o capacitismo, entrando em conflito com os valores da geração Z.

E é por essa chegada dos millennials ao poder que ela já não se inspira mais nos super ternos dos  workaholics  da década de 80; ela tá muito mais inclinada ao despojamento da congressista democrata americana Alexandria Ocasio-Cortez , de Barack Obama ou das celebridades pretas do hip hop e da música pop que ascenderam a cargos de liderança nos últimos anos. É hora de repensar formalidades. Política pode ser cool, e gente como Ruth Bader Gingsburg vira motivo de festas, inspira textões emocionados ou mesmo estampa aquela ecobag engraçadinha. É nessa leva que tecidos tecnológicos, como os que utilizam poliéster reciclado, passam a dialogar com materiais premium, como o algodão pima, o linho e a seda. As modelagens vão ficando mais amplas para acomodar a estética athleisure e expressões de gênero mais fluidas. O moletom estruturado e ultraotimizado consegue assumir o lugar do costume. Ele, por sua vez, cedeu às dinâmicas de relacionamento do século XXI: abdicou da monogamia entre o blazer e a calça e resolveu brincar com croppeds, batas, vestidos e suéteres. Aqui, peças de tricô suavizam austeridades e autoridades



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Ambush / Divulgação


E se o novo progressismo chega dizendo “vamos com calma”, ele também lida com fenômenos tecnológicos que apressam mudanças comportamentais e transformam modelos de negócios da noite pro dia. Uma pesquisa da empresa de softwares Salesforce apontou que 84,2% dos gestores pretendem promover algum formato de trabalho remoto no pós-pandemia. E com esse tanto de gente indo trabalhar em casa, teve quem percebeu que esse negócio de viver num cubículo não tá com nada: em cidades como Nova York e Londres, o êxodo urbano foi uma realidade. Pra quem fica, o jeito é criar uma fissura para a imaginação e para o contato com a natureza, preenchendo cada cantinho com plantas hiperfaturadas.

Mas ó, nem tudo se restringe a escapismo: tem muita gente querendo enfiar a mão na terra e repensando a própria relação com a natureza de maneira mais sóbria, o que coloca tons terrosos e típicos de paisagens naturais em pauta. Jardinagem e  agricultura verticais ganham cada vez mais adeptos e a fórmula “investir mais para comprar menos” ainda é uma máxima da turminha sustentável. No mesmo compasso, a súbita valorização do sol lá fora vem transformando conjuntos  de cores, texturas e propostas de estilo. Deixa a luz entrar, deixa!

Somado a essa onda verde na paisagem urbana, vem o questionamento crescente das jornadas de trabalho impostas pelo capitalismo neoliberal nas últimas décadas. Afinal, com operações digitalizadas e uma série de atividades sendo comandadas por mecanismos de inteligência artificial, não faz sentido que continuemos a operar nos horários de entrada e saída das fábricas que inauguraram o século XX.  Começa, assim, a rolar com maior nitidez uma flexibilização das organizações, a expansão do trabalho freelance e um movimento, mesmo que ínfimo, para tornar as estruturas de trabalho aparentemente um pouco mais humanizadas. Ainda que, do outro lado, haja uma crescente e constante precarização das estruturas de trabalho (apoiada em processos de reformas trabalhistas neoliberais), existem iniciativas que visam promover o bem estar dos trabalhadores. Pense, por exemplo, nas empresas que criaram setores de cuidado para a saúde mental dos funcionários e nas empresas de jornalismo que reduziram as cargas horárias de suas equipes durante a pandemia.


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©White Mountaineering / Divulgação

É preciso ficarmos atentos, contudo. Todas essas transformações trazidas pela digitalização e pelo debate ambiental ainda se restringem a profissionais capacitados e/ou beneficiados pelas estruturas de estratificação patriarcais e racistas que marcaram a consolidação do capitalismo. Embora algumas empresas percebam que precisam fazer um esforço coletivo para habilitar profissionais para lidar com as novas tecnologias, muita gente tem ficado de fora nessas novas dinâmicas de trabalho. Estimativas da McKinsey & Company apontam que mais da metade dos trabalhadores de baixa renda, deslocados durante a pandemia, poderão precisar mudar para ocupações em faixas de salários mais altos que requerem habilidades diferentes para permanecer empregados. E o colapso climático promete intensificar essas desigualdades.

Diante dessas questões, resta a pergunta: se a moda que se dissemina nas redes sociais é cada vez mais sobre roupas e atitudes e menos sobre discursos (um emoji na legenda já basta), como ela vai conduzir ações de promoção da justiça climática e da equidade social para além de ideais aspiracionais? Se programas de sustentabilidade e diversidade continuarem a ser tratados à parte e não integrarem o cerne das marcas, vai ser difícil abrir espaço para um projeto de futuro.


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Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.