MODA



Ana  Carolina Rodarte ︎



Imagem: Reprodução

Acorda, menine! Receita de pão com ovo perde força na cadeia alimentar das modas.


Como o 2020 pandêmico tem gerado um novo olhar sobre a novidade empírica da indústria através de uma demanda experimental.

O período de distanciamento social recomendado como medida de prevenção ao novo coronavírus nos possibilitou um experimento estético em escala inédita: o que ocorre quando as pessoas não encontram, fisicamente, olhares e espaços externos e toda a sua performance fashion se condiciona às duas dimensões de uma tela? Algumas possibilidades foram apontadas na edição virtual da Semana de Moda de Londres, mas, nas redes sociais, os criadores independentes também não deixaram a desejar em suas hipóteses. Lá, naquela janelinha virtual, onde um filtro pode se encarregar do seu look do dia, a composição das roupas condiciona-se menos a requisitos vinculados ao uso —  conforto, elasticidade, resistência, caimento —  e mais aos vinculados à estética. Se não há toque, tudo pode ser vestido.

Quem tem provado isso é a designer e fotógrafa russa Maya Golyshkina, que passou a usar embalagens de chips, bonecas de plástico, garrafas plásticas e frutas como matérias-primas para os looks que ela posta no Instagram (@_themaily_). Em maio, ela recriou looks da temporada outono-inverno 2020 para o The Face em representações bidimensionais de papel. O material voltou a ser usado pela moça em agosto; desta vez, em um editorial produzido em colaboração com a Marc Jacobs.

No Brasil, em abril, os artistas gráficos Rita Davis, Filipe Lampejo e João Emediato criaram o projeto Mascorona (@mas.corona), desafiando pessoas de diferentes áreas e perfis a criar máscaras a partir de materiais e objetos não-convencionais. Até o fechamento desta edição, o perfil contava com 234 publicações. Em entrevista ao Quarto Amado, Davis conta que “algumas [máscaras] significam sensações, desejos e angústias durante a quarentena. Outras são de pesquisas super profundas (...). Mas todas de alguma forma são um canal para abstração da realidade. (...) trancadas em casa, coisas loucas acontecem, objetos inesperados vão parar colados na nossa cara.” O perfil será desativado no fim do distanciamento social no país.

Mas as experimentações não se limitam à materialidade das roupas e acessórios. A designer francesa Michaela Stark  — que já colaborou com Beyoncé no vídeo de “Apesh*t” e no “Black is King” — ganhou notoriedade nos últimos meses por repensar parâmetros de modelagem e encarar as lingeries como esculturas. Em seu trabalho, Stark faz com que as peças ressaltem as características do corpo feminino que as lingeries tradicionais, sob os holofotes do patriarcado, buscam esconder, um trabalho que nos remete ao de Georgina Godley nos anos 80. Para quem estiver em solo londrino no fim do ano, as peças de Michaela serão exibidas na exposição “Inside Me”, da Gillian Jason Gallery.

Ainda precisamos de tempo para entender como o distanciamento e a relação intensificada com as telas afetaram a imagética da moda. Contudo, embora algumas marcas e eventos insistam em um resgate das condições pré-pandêmicas, trabalhos de criadores independentes nos oferecem alguns apontamentos das mudanças que vêm aí. Para além da necessidade de proteção e do primor pelo conforto, observa-se a emergência de uma imagética grotesca, não no sentido pejorativo do termo, mas no conceito bakhtiano do que está em um “processo de tornar-se.” A imaterialidade de um mundo representado em telas liquefaz alguns pudores e referências, o que, para um futuro que está se desprendendo de padrões coloniais, pode ser muito bem-vindo. Ficamos na torcida.



MJOURNAL ED.004 - FLOR DE CEM, RAIZ DE MIL.