ENSAIO

Paulete Lindacelva





ACINTE AO EFÊMERO



Me sinto responsável, ou pelo menos me coloco nesse lugar, de ser fazedora de provocações. Na verdade quero isso pra mim, me pôr no lugar de interlocutora.



Tenho tido dificuldades para organizar o meu pensamento. Nesse momento existe uma demanda de produtividade que suga toda e qualquer vontade de querer fazer algo.


Seja no campo artístico, seja nas relações humanas. Sempre que posso tenho externado como a imagem é uma droga, como ela cansa, como as demandas de mostrar que você é produtiva cansam.

Gosto de
abraçar os processos e trazê-los para o centro da questão. O
produto é uma consequência do processo. Agarro-me ao processo por entender que ele é um catalisador de reações. É o processo que movimenta minhas dúvidas, que me faz perceber erros e me faz remontar inclusive

a ideia do sucesso.



Muitas de nós vivenciam um momento de bombação on-line e o sucesso da imagem efêmera é vendida até como democrática, a imagem de sermos produtoras de conteúdo.
Conteúdo efêmero e de rápida absorção.

São 16 segundos para fala e 24 horas para o consumo imediato de algo que geralmente exige uma complexidade na análise, no
sentimento e no assunto. Conteúdos que pedem mais delicadeza e aprofundamento quando ligados a questões políticas e identitárias.
É compreensível que discussões e pautas retornem aos debates, questões como colorismo, diferença entre trans e travesti, lugar de fala, pink money... É sabido que o retorno dessas questões se dão por vivermos numa conjuntura política de violências contra sujeites racializades e sexodissidentes.

Acredito na potência dessas pautas e as coloco como pertinentes,

mas é preciso ser mais sagaz, ou como dizem as travestis: SER LIGEIRA.


É assentida a tentativa permanente, digo que até fetichista, da branquitude de nos fazer responder perguntas e questões criadas por eles. O que nos deixa fincadas em pautas que já possuem vasto e valiosíssimo material produzido.

Sinto que é um momento de cuidado e atenção. Sinto que é preciso afastar-se da preguiça branca que nos faz perguntas repetidas, esperando respostas já dadas e que tem nos impedido de avançar na construção de novas epistemologias.

Termos responsabilidade por nossos discursos é indispensável para que avancemos nas discussões.



Paulete LindaCelva (1994) é Recifense residindo em São Paulo, curadora independente, DJ,  artista visual e apresentadora. Sua produção permeia por questões de raça, desobediência de gênero e políticas de afirmação.  Atualmente desenvolve o projeto “MOTE” em parceria com a Cereal Melodia.

MJOURNAL ED.004 - FLOR DE CEM, RAIZ DE MIL.