Comportamento


Ana Carolina Rodarte ︎



Imagem:   

© Nick Fancher/ DTS

A revolução nos braços de Morfeu.


Para onde os sonhos nos levam quando o mundo se reescreve?


Em um campo aberto, uma criatura em desmanche perde a sua cabeça. Enquanto ela desliza pelo corpo, um belo busto feminino nasce em seu antigo posto, circundado por raízes e protegido por um véu que lhe atribui um quê de sagrado. Atrás dessa cena, uma mulher sobre um pedestal e também coberta por um véu contempla quatro grandes retratos de corpos femininos. Dispostos em um biombo, eles ocultam que a montanha ao fundo está em chamas. Logo ao lado, uma mulher em prantos se agarra a um corpo que transcende. Uma garrafa nos ares serve um copo de café. À frente, a pintora Remedios Varo, com seus olhos de coruja, vigia três gatos travessos.

Esse arranjo, que compõe a obra “Os Dias da Rua Gabino Barreda” (1944), foi a forma encontrada pelo pintor mexicano Gunther Gerzso para descrever a cena efervescente criada por ele e outros artistas surrealistas na cidade do México dos anos 40. Para eles, as experiências oníricas abriam campo para explorar os desejos do inconsciente, a espinhosa beleza das emoções, ideais revolucionários e a sabedoria da arte pré-Colombiana. Essa, claro, não foi a primeira vez que os sonhos ofereceram recursos para imaginarmos novos mundos. Em 1713, o compositor italiano Giuseppe Tartini, contemporâneo do Vivaldi, sonhou que entregava um violino ao Diabo para descobrir que tipo de músico ele seria. O tinhoso então tocou um solo tão, mas tão bonito, que Tartini tentou reproduzi-lo em uma sonata, a “Devil’s Trill”. O trabalho, segundo ele, não chegou nem perto do que ele ouviu ao sonhar, e ainda hoje, é um baita desafio para violinistas.

Mas as ruminações e insights trazidos pelos sonhos não são exclusividade de grandes artistas. Prova disso é que os meses de distanciamento social impostos pela pandemia fizeram com que muitas pessoas passassem a prestar mais atenção aos sonhos. Afinal, eles se tornaram muito mais vívidos nesse período, como levantaram pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo multicêntrico deu origem ao livro “Sonhos Confinados: o que sonham os brasileiros em tempos de pandemia”, um documento que coletou, registrou e ouviu sonhos para entender o que as pessoas não diziam sobre essa intensa experiência social compartilhada que tem sido a pandemia.

“A ideia de sonhar é interessante porque é uma das experiências mais íntimas que uma pessoa pode ter. Às vezes é difícil até contar o que aconteceu num sonho. A gente tem uma sensação e não sabe dizer o que aconteceu. E essa vivência ninguém consegue nos retirar”, compartilha a professora do departamento de Psicanálise e Psicopatologia da UFRGS, psicanalista e psicóloga Cláudia Perrone, que participou da pesquisa.

Para entender o diálogo entre os sonhos e os tempos traumáticos que os formam, os pesquisadores precisaram olhar para um outro período de terror coletivo: a ascensão do nazismo durante a década de 30.

Em 1933, a jornalista alemã Charlotte Beradt passou a ter uma série de pesadelos, povoados por perseguições, torturas e mortes. Ao compartilhar sua inquietação, observou que outras pessoas também estavam tendo sonhos semelhantes — sendo que, mais tarde, vários deles se mostraram preditivos. Entre 1933 e 1939, ela se arriscou para entrevistar aproximadamente 300 berlinenses de diferentes perfis, traçando um painel onírico sobre os efeitos do fascismo sobre a população. A experiência foi narrada no livro “Sonhos do Terceiro Reich”.

Considerando o caráter absurdo dos dias de hoje, correr para os braços de Morfeu não parece assim tão escapista; soa mais como uma estratégia de sobrevivência. Mas o que nossos sonhos dizem sobre o que temos vivido? Mais importante: eles podem nos dizer aonde vamos ou desejamos ir?

Um oráculo probabilístico pincelando a tela do real


As atribuições das narrativas que vivemos ao dormir são diversas, embora elas sejam frequentemente vistas como uma forma de enfiar o pezinho no futuro. Os antigos egípcios contratavam sonhadores profissionais para ter uma visão sobre o que apontava no horizonte. Para gregos e romanos, os sonhos eram uma porta para o futuro e para o mundo dos mortos. Na Caatinga brasileira, ainda hoje, os tradicionais “profetas do sertão” usam seus sonhos para prever chuvas e períodos de fartura.

Mas foi Freud que, na entrada do século XX, aplicou rigor científico para examinar o papel das experiências oníricas em nossas vidas. Ele considerava que os sonhos eram uma expressão de desejos reprimidos, muitas vezes de natureza sexual — porque ele era o Freud e segundo ele todo mundo só pensa em fornicar. Carl Jung fez uma adição ao argumento do colega safadinho, explicando que os sonhos forneciam acesso aos pensamentos e emoções que armazenamos no subconsciente.

Já neurocientistas contemporâneos provam, com tomografia por emissão de pósitrons e outras técnicas modernosas, que os sonhos são um retrato do quartinho da bagunça em nosso cérebro. Enquanto o neocórtex funciona a todo vapor durante o sono, diversas regiões do hipocampo — responsável por nossas memórias — fazem uma espécie de upload das informações de curto-prazo. Depois, o hipocampo passa por uma faxina para armazenar mais dados no dia seguinte, enquanto o neocórtex decide o que vai transferir para as memórias de longo prazo e o que vai descartar.

Aqui no Brasil, o neurocientista e chefe do laboratório do Sono, Sonho e Memória do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Sidarta Ribeiro, defende a tese de que os sonhos evoluíram nos mamíferos ao longo de 200 milhões de anos como uma espécie de oráculo biológico probabilístico. Eles seriam um espaço livre para testarmos possibilidades a partir das nossas experiências, sendo fundamentais pra humanidade ter chegado até aqui. “O sonho é uma tentativa de simular o amanhã com base no ontem; a recombinação disso abre espaço para novas ideias e criatividade”, contou ele ao National Geographic.

Sonhos a postos no resgate dos sentidos


Enquanto Charlotte Beradt se revirava com seus pesadelos, o ensaísta e filósofo Walter Benjamin observava um certo emudecimento na paisagem. Como ele conta no ensaio “Experiência e pobreza”, após a Primeira Guerra Mundial, com o boom da mecanização e das lógicas bélicas no cotidiano, a percepção sensível das pessoas parecia não se habituar aos constantes choques provocados pela vida moderna e seu ritmo alucinante. Sem tempo de se recuperar dos excessos de luz, de violência, de velocidade e de estímulo, as pessoas passavam a um estado de apatia. Soa familiar? Pois é.

“Hoje, vivemos um discurso bruto, em que situações complexas são entendidas de modo fácil. Veja, a gente está em meio a uma pandemia que não entendemos, e chega um cara falando em ‘imunidade de rebanho’. Passamos a viver sob uma lógica de pensamentos de meme, onde uma imagem se repete à exaustão e impõe uma legenda. A gente não tem nem liberdade de olhar a imagem. Nossa linguagem nunca foi tão tosca. Não há espaço para o enigma”, pontua Cláudia Perrone.

Inspirada pelas investigações de Benjamin, Perrone, a pesquisadora e psicanalista Rose Gurski e o grupo de pesquisas do qual elas fazem parte encontraram na experiência dos sonhos um território de partilha do sensível e de exercício da imaginação. “Há essa ideia de que o sonho é uma fita de Möbius, onde você não consegue separar bem o que está por dentro e o está por fora. Mesmo que estejamos em nosso espaço mais íntimo, conseguimos sonhar com uma estrutura histórica, política e social, e essas coisas se entrelaçam.”

E se você já tá sentando o dedo no Google pra entender o significado daquele sonho que teve na noite anterior, é melhor respirar um pouco. É que, na chamada oniropolítica — o conceito em construção, sugerido pelo psicanalista Christian Dunker em uma reunião com Perrone e Gurski, refere-se a uma política dos sonhos, que considere a função coletiva do sonho e do gesto de sonhar para além de objetivos terapêuticos; o objetivo aqui é considerar a singularidade do desejo, manifesto na experiência onírica, como uma ferramenta de combate ao totalitarismo —, as imagens dos sonhos não são estudadas por um viés interpretativo. Afinal, como Cláudia afirma, num tom esperançoso, a simbolização onírica não é nem um pouco domesticável; a força do sentido está na própria imagem.

“Quem sabe assim, a gente reaprende a ver imagens? Quem sabe a gente consegue reatar com a riqueza da linguagem, com a polissemia? Porque a gente não precisa de alguém dizendo o que temos de enxergar e sentir. Não existe um sentido único. Existem várias possibilidades de sentidos!”

Como bússolas inconscientes de nossos desejos e anseios, portanto, os sonhos podem nos indicar para onde queremos ir ou do que desejamos fugir. Mas para ouvi-los, precisamos ir além da simbologia e das generalizações que espalhamos por aí. A casa que aparece em meu sonho não é a mesma que figura no seu: em meu sentido, ela pode dizer sobre o medo; no seu, ela pode ser acolhimento, uma doce lembrança ou mesmo um aviso comezinho de que a conta de luz não vai se pagar sozinha.

Para ajudar os sonhadores de plantão na escuta de seus quereres e no acolhimento das imagens que os visitam à noite, Cláudia oferece alguns conselhos: “Preste atenção às imagens de seus sonhos, escreva sobre elas. Você pode usar um caderno de notas ou desenhar o que viu. Compartilhe com amigos e forme comunidades de sonhadores. Perca tempo com seus sonhos, é muito bom!”

Enquanto o mundo entra em novo arranjo, entremos no compasso de Morfeu. Afinal, esse futuro que aponta na esquina carece de uma escuta atenta aos nossos desejos, e eles teimam em nos mover ao sabor de seu próprio vocabulário.



Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.