Política


Ana Carolina Rodarte ︎


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A borboleta do Leste Europeu bateu as asas. Que ventos chegam ao Brasil?





O MJournal reflete sobre as consequências de mais uma rinha de homens brancos imperialistas do Norte Global sobre a juventude no Brasil.

Alerta de gatilho: o texto a seguir possui alguns dados que podem agravar sintomas de ansiedade e ecoansiedade. Indicamos essa leitura caso você sofra com os transtornos. Você não está só nessa e, mesmo que sua contribuição seja miúda, ela faz toda a diferença. Aproveitamos a oportunidade para deixar claro que reconhecemos os fatos como ferramentas para agirmos no presente em busca de um futuro melhor. Vamos de sacode.

A imagem da Cassie — a loira carentona que se destacou na última temporada de Euphoria — chorando rodeada por flores nos enganou direitinho: de uns meses pra cá, um monte de pessoinhas tiraram suas boinas do fundo do armário num resgate desavergonhado das ambições mais românticas que poderiam ter. A repaginação da estética Twee enfim sinalizava para o retorno do otimismo millennial. Mas fomos pegos de rasteira logo no início de 2022 pelo anúncio de uma guerra entre superpotências: no dia 21 de fevereiro, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, reconheceu as regiões separatistas ucranianas Donetsky e Luhansky como repúblicas independentes. No dia 24 de fevereiro, a Rússia, empoderada por um acordo comercial expressivo com a China, invadiu a Ucrânia, dando início a uma sequência de bombardeios, ameaças nucleares e uma crise de refugiados. Mais de 80 bebês nasceram nos abrigos ucranianos durante a última semana. Não há escapismo que resista às manchetes.

A invasão ao segundo maior país da Europa é justificada, na visão do líder russo, com uma série de motivos. Segundo ele, a Ucrânia: não poderia ser reconhecida como um país; estaria colaborando para fortalecer o “neonazismo”; e, principalmente, cooperando com um plano de expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte — a Otan. Reforçando, essa é a perspectiva do Kremlin, já que não há qualquer evidência do alinhamento entre o governo ucraniano e ideologias nazistas. Parte desse conflito nasceu do fomento que a Rússia deu a grupos separatistas desde que anexou o território da Criméia em 2014 — não por solidariedade aos separatistas, mas pelos portos estratégicos da região. Mas embora o presidente Volodymyr Zelensky tenha ganhado holofotes, os protagonistas desse arranca-rabo são, na verdade, Rússia e Otan, um conflito que remonta ao fim da Segunda Guerra.

A aliança militar pleiteada pelos Estados Unidos foi criada em 1949 para deter o avanço do domínio soviético na Europa. Mas se o Império Russo se dissolveu, por que a Otan continuou existindo e se expandindo no Leste Europeu depois de 1990? Bom, como pontua o linguista, sociólogo e filósofo Noam Chomsky em uma entrevista selecionada pelo canal Meteoro, “a missão da Otan mudou. Ela não pretende mais proteger a Europa dos soviéticos, ela quer controlar a energia no mundo. Eles controlam rotas marítimas e dutos de óleo e gás. São uma força interventora dos EUA.”

O presidente Joe Biden já disse que não mandará forças militares para defender o território da Ucrânia — mas também declara que a Ucrânia é livre para entrar na Otan e a gente já sabe como o conceito de liberdade é tratado pelos americanos (rs) —, embora se posicione firmemente contra as ofensivas de Putin. Para ele, faz muito mais sentido agir por meio das sanções econômicas que diversos países vêm fazendo à Rússia, uma das maiores fornecedoras de petróleo e gás natural do mundo.

“Tá bom, Ana, adorei a aula de história, mas como isso afeta a gente aqui do Sul Global, mais especificamente no Brasil, onde nem um Carnaval a gente pode pular em paz?” Já chego aí, meus bons. Vamos por partes.

Reconfigurações na matriz energética global



Como explica a doutoranda em Relações Internacionais e especialista em Geopolítica de Energia na Eurásia, Nathana Garcez, “pela primeira vez, em muitas décadas, os Estados Unidos ganharam status de exportador de energia: eles descobriram xisto nos últimos anos. Eles têm energia de sobra pra exportar e não têm quem compre. Ou seja, há uma questão energética muito forte nesse conflito!” Por esse plot twist você não esperava, não é mesmo?

Pois além do xisto americano, outro elemento atesta o argumento de Garcez: o gasoduto Nord Stream 2, que levaria gás natural da Rússia à Alemanha, passando pelo mar Báltico. Como já contamos, a Rússia é um dos maiores exportadores de petróleo e gás natural do mundo e, entre seus maiores importadores, estão os países da Europa — 40% do gás natural consumido na região é russo —, que dependem desse gás para ter uma matriz energética funcional. Ocorre que, com o ataque da Rússia à Ucrânia, a Alemanha decidiu congelar a certificação do gasoduto, que representaria um negócio e tanto para os russos e garantia de energia mais limpa para os alemães.

Os demais países até tentaram deixar o petróleo e o gás natural de fora das sanções, mas uma série de empresas comercializadoras e transportadoras de petróleo, bem como os bancos que financiam essas operações, seguiram o movimento da Alemanha: decidiram suspender suas operações no país por razões reputacionais. Os combustíveis, e por consequência, toda a cadeia de transporte que deles dependem, vão arcar com preços mais altos.

E se o bolso já está chiando, o planeta também sairá prejudicado: “Um movimento que os países da Europa e a Alemanha em particular estão fazendo nesse momento é buscar alternativas para o gás russo. E a curto prazo, essas alternativas passam por energia suja, mesmo que isso leve ao aumento das emissões de gases de efeito estufa, a retomar plantas de usinas movidas a carvão e gerar resistência — a Alemanha tem um partido verde muito forte. Isso vai trazer consequências para depois da guerra” conta o professor de Economia  Daniel Sousa em uma das edições do podcast Petit Journal.

Um outro agente importante desse conflito, como introduzimos ali atrás, é a China. Os acordos comerciais que ela tem travado com a Rússia permitem que o Kremlin se torne um pouco menos dependente dos países do Ocidente. Entre esses acordos, está a rede de gasodutos entre China e Rússia, que pode mudar a dinâmica de fornecimento do produto no mercado global.

Alta nos preços dos alimentos e fertilizantes


As sanções à Rússia não se limitam aos combustíveis. Ela também se estende à produção de alimentos. Vale lembrar que tanto Rússia quanto Ucrânia são grandes exportadores de grãos — juntos, eles produzem 30% do trigo de todo o mundo. Os ucranianos se destacam ainda por exportar milho, um ingrediente fundamental para a produção de ração para bovinos e aves [alô? É o agronegócio?].

Além de fornecer grãos como cevada e trigo, o território governado por Putin também se destaca na produção de fertilizantes, como o nitrato de amônio, tendo o Brasil como um dos seus principais importadores — 62% dos produtos que importamos da Rússia são representados por essas substâncias. Isso explica a posição ambígua do governo brasileiro em relação ao conflito, já que a questão do fertilizante, para uma gestão que privilegia os grandes barões do agronegócio, “é sagrada”. Vale lembrar que 80% dos fertilizantes que usamos são importados, já que não temos tecnologia sustentável para produzi-los em território nacional. E o (des)mandatário está comemorando a venda de uma unidade produtora de fertilizantes da Petrobrás a um grupo russo, um dos assuntos tratados por Bolsonaro em sua ida à Rússia.

Isso nos faz pensar não só na dependência que a agricultura brasileira desenvolveu por parte desses agentes, mas também em como a alta dos grãos importados da Rússia e do Leste Europeu tende a se agravar com a má gestão dos alimentos em nosso país. Segundo reportagens feitas pelo jornal independente O Joio e o Trigo, o governo federal tem agido para sucatear estoques de grãos como arroz, trigo, milho e soja, o que prejudica gravemente a Política de Garantia de Preços Mínimos. O arroz está caro não só por causa das instabilidades no regime de chuvas, mas principalmente por negligência do governo, o que colabora com a insegurança alimentar de nosso país.

Conscientização sobre o imperialismo do Norte Global


Da mesma forma que o Black Lives Matter reconfigurou a tratativa de questões raciais na grande imprensa e popularizou alguns termos que estavam restritos a âmbitos mais acadêmicos, o conflito entre Ucrânia e Rússia pode promover uma conscientização coletiva sobre as desigualdades étnicas que perpassam o conflito. Desde o início da invasão russa, mais de 870 mil pessoas saíram do território ucraniano para se proteger, segundo o Acnur, órgão da ONU para refugiados. Eles se direcionam, principalmente, a países como Polônia, Hungria, Romênia e Moldávia, sendo a maior crise de refugiados que a Europa passa desde 2015, quando recebeu pessoas que fugiam do conflito na Síria. A diferença é que, agora, os países têm sido muito mais receptivos. Para se ter uma ideia, a mesma Polônia que agora diz que aceitará “qualquer pessoa que precise” está construindo um muro de 186 quilômetros para impedir a entrada de imigrantes do Iraque e Afeganistão. Há, portanto, uma, podemos dizer assim… “hierarquia de refugiados”, pra não dizer racismo mesmo.

Populações racializadas também têm questionado ativamente os apartheids que ocorrem dentro do território ucraniano e nos países vizinhos. Pessoas negras ucranianas e imigrantes que vivem no país têm sido barrados de entrar em trens e ônibus e têm de andar quilômetros para se proteger.

Como apontado pela equipe do Alternando Olhares, a “comoção e a empatia parecem ser destinadas a um grupo específico”. Ao apontar o absurdo de um conflito dessas proporções acontecer na Europa, a mídia ocidental majoritária tem adotado uma perspectiva eurocentrada, que desumaniza pessoas não-brancas e não-europeias e naturaliza conflitos armados em regiões como o Oriente Médio e o Norte da África. Na última segunda-feira (28/02), por exemplo, mais de 30 palestinos ficaram feridos após um ataque promovido pela polícia de Israel. E enquanto condenam os russos, os EUA bombardeiam a Somália. Onde está a solidariedade internacional para essas pessoas?

Tudo isso é marca do orientalismo. O conceito, formulado pelo crítico literário palestino Edward Said, explica a busca por colocar o Ocidente como um polo de desenvolvimento e racionalidade, e o Oriente como uma aberração subdesenvolvida. “O orientalismo não se refere a um lugar, mas a um imaginário; é por isso que raça não é uma categoria, mas um processo. Ser ‘orientalizado’ é ser alvo das necessidades intermitentes e dos desejos do capitalismo e do império”, escreve o autor Mark Tseng-Putterman.


Contribuições para o colapso climático



Após mais de dois anos de pandemia, já não dá mais para fingir que as péssimas decisões das superpotências do Norte Global não causam consequências para os ecossistemas, povos nativos e populações mais pobres de todo o planeta. O conflito entre Ucrânia e Rússia pode e já contribui com as injustiças ambientais. Afinal, como contamos ali atrás, os países europeus estão pensando em recorrer a usinas movidas a carvão, uma fonte de energia poluente, para se tornarem menos dependentes do gás russo a curto prazo.

Na última segunda-feira (28/02), foi lançado um novo relatório do IPCC — o painel científico da ONU para o clima. O documento não poderia ser mais claro: nas próximas duas décadas, as sociedades humanas enfrentarão uma série de riscos climáticos inevitáveis causados pelo aquecimento global de 1,5 graus Celsius.

De acordo com o estudo, o Brasil está entre os países mais vulneráveis, se considerados os riscos de aumento dos índices de calor e umidade, que podem ultrapassar os limites da sobrevivência se não houver a necessária redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) — no Norte e no Centro-Oeste do Brasil, é possível que condições perigosas de temperatura passem a ocorrer até 30 dias por ano caso nada seja feito. Em comentário ao ClimaInfo sobre o relatório, o Observatório do Clima aproveitou para pontuar que “nas regiões mais vulneráveis, o número de mortes por secas, enchentes e tempestades foi 15 vezes maior na última década do que em regiões menos vulneráveis.”

O documento do IPCC também aponta que as chuvas podem diminuir em até 22% no Nordeste ao longo deste século se as emissões continuarem elevadas. Até 2100, o aquecimento pode reduzir em até 27% a vazão na bacia do Tapajós e em 53% na bacia do Araguaia-Tocantins, o que afeta os ciclos de chuvas em todo o país e, consequentemente, a produção de alimentos. O fornecimento de trigo no Brasil, por exemplo, pode cair 21% com a alta de emissões. Um estudo da Sociedade Americana de Engenheiros Agricultores e Biológicos (ASABE, em inglês), aponta que a produção de milho pode cair em até 71% até o fim do século no Cerrado se as emissões continuarem a aumentar, ou 38% caso elas sejam reduzidas rapidamente.

Em comentário sobre esse contexto, Nathana Garcez dá o alerta: “Combustíveis fósseis operam como uma das principais conexões entre poder e dinheiro no mundo (...) eles fomentam os poderes militares e esforços de guerras. Não há qualquer tipo de apontamento de que isso mude. Países da Europa Ocidental e a China vão procurar diversificar suas matrizes energéticas, mas essa é uma consequência de médio e longo prazo. (...) As energias [sujas] tendem a se manter e vão gerar grandes impactos no Sul Global, como as chuvas que presenciamos no início deste ano. Não dá pra fazer um processo de transição energética ou processos de justiça climática sem entender que há agentes no sistema capitalista que não têm interesse nisso.”

A especialista também aponta que a necessidade de diversificar a matriz energética pode levar as superpotências a financiar fontes de energia limpas, como é o caso do hidrogênio verde e da energia maremotriz. Há, portanto, a longo prazo, uma chance de crescimento em países com matrizes energéticas mais limpas no Sul Global, como a Etiópia. Mas como elas estão disponíveis em poucas quantidades ou são intermitentes, exigindo longos investimentos, no momento, os países vão recorrer à reativação  de usinas nucleares e a fornecedores alternativos de gás natural.

Não dá, portanto, para evitar um gosto amargo na boca ao receber as notícias do conflito. Mais uma vez, a juventude do Sul Global sofre com as consequências do colonialismo a.k.a. imperialismo do Norte, enquanto ainda digerimos os impactos da geopolítica da vacina, da precarização do Estado e de um regime de exploração de recursos naturais que os retrata como infinitos, enquanto nós arcamos com a inevitabilidade da escassez. É tempo de cessar-fogo para que também tenhamos a ousadia de sonhar com flores.



Mjournal Ed.009- Quando a primavera chegar.