SOCIEDADE



Bruno de Barros



Imagem: Reprodução

A travessia exige coragem e repertório


Na batalha de pensar futuros possíveis, comunidade trans alterna maior capacidade de resistência com fragilidade acentuada num país transfóbico.


A partir da assimilação do estado do tempo e de que essa pandemia impõe novos modos de estar com os quais teremos de viver por um período ainda indefinido, é preciso organizar estratégias para realizar essa travessia. O Guia Anarquista para sobrevivência ao vírus, publicado no site da aliança rebelde CrimethInc traz muitas boas observações que nos mostram que mais do que o senso de agrupamento a la Novos Baianos, é preciso considerar comunidade para toda a sua rede, próxima ou distante, com quem teremos para trocar e contar. Com o objetivo de sobreviver ao vírus, este é o seu grupo de afinidade, o alicerce básico da organização anarquista descentralizada”. O guia também lembra que dentro deste grupo é possível se ninguém tiver o vírus, se pode “abraçar, beijar, fazer comida juntos, tocar as mesmas superfícies — desde que você concorde com o nível de risco que está coletivamente pronto para tolerar e comunicar sobre ele quando um novo fator de risco surge”. Reflito que agora acaba por ser um momento em que nos deparamos com o retorno de como viemos tecendo nossa rede até aqui. E de que a revisão dos afetos e das relações se passa pela construção do ideal de futuro. E de que há que se ter coragem na reinvenção das relações.

Quem já vinha irmanada acaba por ter mais facilidade de ativar sua rede de apoio e sair do transe do impacto da sua norma e rotina ameaçadas pela Covid-19. A COLETIVIDADE MARSHA!, LIDERANÇA ASSOCIADA DE CONTEÚDO das duas primeiras edições do MJ, já realizou dois eventos de grande impacto e se prepara para o terceiro dentro desse período pandêmico. No primeiro as manas reuniram grandes nomes de influência no pensamento político, social e da arte como a artista visionária Jota Mombaça, e a nossa pilar de esperança política Érica Malunguinho, entre muitas outras personalidades trans, a fim de refletir as urgências do tempo, e entrega de cultura e entretenimento às pessoas em casa. No segundo, em parceria com o CCSP, as gatas ampliaram o debate e trouxeram participações sis com nomes como o artista multimídia o Novíssimo Edgar, as pensadoras Djamila Ribeiro e Igi Ayedun, além de faróis do ativismo e representatividade trans como a top Lea T. além de uma apresentação fresquíssima de Jup do Bairro. Ao todo, são cinquenta horas salvas de conversas, oficinas, shows e performances, disponíveis nos canais do Youtube e Instagram das manas. Já amanhã e sexta a MARSHA! entra na sala com 14 horas de programação em parceria com o coletivo de Belém do Pará Taka Night. Além de pautar o enaltecimento da cultura do norte do país com 100% da programação composta por artistas nortistas, o financiamento coletivo aberto para custear a produção do evento, também busca montar e distribuir cestas básicas para o COMITÊ ARTE PELA VIDA, associação que há 23 anos presta suporte a pessoas vivendo com HIV/AIDS no Pará. TRANS-CHIQUE.

A sagacidade das manas comprova que elas vinham atentas desde muito antes da crise. Me parece, que elas pegaram todas as facas para uma travessia logo que o texto foi elaborado e apresentado por Jota Mombaça. Tão potente quanto o guia que cito no início deste texto, a entrevista de 2018 da intelectual para o grupo de pesquisa e extensão Áfricas nas Artes do Centro de Artes Humanidades e Letras (CAHL) da universidade Federal do Recôncavo da Bahia(UFRB) merece a mesma atenção. Talvez possamos equiparar os entendimentos dos corpos cis para morar na indefinição e refundar o possível. Mas também não se iluda, pois a língua bifurcada não permitirá acesso assim tão fácil. E se o entendimento brilhar, lembre-se de não roubar conceitos, reconhecer e endossar as pessoas a partir da autodefinição de cada ume. Não confunda a redistribuição da violência com a badtrip da polarização na qual o país padece, uma vez que não é sobre expor corpos a ela e sim pensar em como lidar com os efeitos das explosões de modo mais compartilhado e seguro, pensando em todes, vivas. Sempre.

Nem tudo são flores e na comunidade queer brasileira amanhecemos em luto no domingo(17/5) após a morte trágica do modelo Demétrio Campos. Habitando a interseccionalidade negra X trans, o jovem de 23 anos perdeu a batalha para a depressão. O caso marcou o Dia Internacional de Combate à LGBTfobia pelo quanto o sistema pode oprimir um corpo forma da norma o empurrando ao absurdo. Mais do que o desejo de já chega dessa tenuidade vida e morte - tida quase como banal toda - para nós racializadxs, é preciso um basta a partir da branquitude. E branquitude, não entenda pessoa isolada de modo generalista. Mas pessoa incluída no privilégio proporcionado por um sistema de organização social racista, classista e opressor. Que usufrui deste sistema. E como apontou a intelectual Tatiana Nascimento, “a branquitude é um lugar de fala sobre o racismo”. Nesse momento em que o caso de George Floyd escancara mais uma brutalidade cometida por uma pessoa branca, da polícia, a uma pessoa negra. Evidenciada e re-transmitida a exaustão para o mundo. No Brasil onde a letalidade da polícia é cinco vezes maior do que nos EUA. A gente faz o quê? E eu não sei o que cada umx pensa e sente ao ver um corpo negro estendido no chão. Eu penso que poderia ser eu. E que ali se vai mais umx igual.