ANA CAROLINA RODARTE


Com uma música neotropical e um sorriso brilhoso, o jovem belo-horizontino mostra que genialidade é resultado de um trabalho coletivo e que a imaginação ainda é a melhor chave para encontrarmos o outro.


Kaike ainda está descobrindo o horror que um ataque de dementadores pode causar a alguém desprevenido. O jovem de 15 anos retomou há pouco o gosto pela literatura e está lendo a saga de Harry Potter pela primeira vez. Obras de fantasia, assim como de ficção científica e os casos de amigos, inspiram as histórias que ele escolheu cantar e dançar. Entre uma trama e outra, ele escreve canções. Algumas faixas o público já conheceu: “Lojinha do Zé”, “Rosa” e “Vem” arrancaram elogios de gente como Duda Beat e Mateus Carrilho, e suas covers, gravadas de maneira animada numa brincadeira de primos, conquistaram Kali Uchis.

Desde outubro do ano passado, o belo-horizontino tem apresentado os trabalhos que gravou num estúdio de Brasília em semanas de imersão artística. Foi a caminho do estúdio de sua produtora, Clara, que Kaike soube o que é viajar de avião. Ele ainda está ganhando intimidade com o violão e com a rotina da produção musical, mas suas referências deixam muita gente por aí boquiaberta. E é com esse entusiasmo das primeiras coisas que ele tem se tornado uma das vozes mais promissoras do pop alternativo brasileiro.

Música pra sonhar junto


Kaike Martins é a prova de que uma criança se educa com o esforço de uma vila. O jovem da cidade de Belo Horizonte (MG) cresceu num terreiro dividido pelos pais, tios e avós maternos, onde os primos viviam as fantasias uns dos outros e brincavam juntos. Entre esses primos, está Sara, com quem Kaike começou a fazer seus primeiros experimentos em vídeo, aos seis anos. Eles gravavam vídeos cantando e o menino assumia também a função de empresário. No primeiro computador que teve, passou a gravar vídeos, editar e brincar com efeitos especiais.

Mas Kaike logo entendeu que tão importante quanto dominar as traquitanas audiovisuais era colocar a sua voz pra jogo: o talento para o canto e para a dança começou a tomar forma na igreja que frequentava com a família, e foi na escola que ele passou a escrever e apresentar seus poemas e coreografias em saraus e festivais.  Despachado que só, ele participava de todos os eventos culturais organizados por professoras e coordenava os grupos de apresentação. O incentivo vinha de Rosimeire, que o acompanhou durante o fundamental:  “Ela era uma professora preta, ensinava super bem. Eu me via muito representado nela.”

A pandemia de 2020 surpreendeu Kaike quando ele começou a explorar a cidade, aos 14 anos. O jovem artista, que já gravava covers para o YouTube, estava entusiasmado para conhecer os festivais do circuito brasileiro, mas precisou suspender planos para colaborar com o distanciamento social.

Nesse mesmo período, ele foi descoberto por Duda Beat, que o indicou a produtora Clara Borges e seu parceiro, o produtor musical Iago Suarez. A dupla se derramou de amores pelo garoto e começou a colaborar com ele à distância. Mas como música que é boa aproxima, para gravar singles como “Rosa” e “Vem”, Kaike fez sua primeira viagem de avião e entrou num processo imersivo no sítio de Clara em Goiás. O processo foi repetido no segundo semestre deste ano; desta vez, para finalizar as gravações de faixas que serão lançadas nos próximos meses.

Após a vacinação de uma parte considerável da população brasileira, o circuito musical se reavivou, abrindo caminhos para que Kaike apresentasse seu primeiro show no fim de setembro, no circuito Tranquilo, em Belo Horizonte. O clima no Mercado Novo, onde ocorreu o evento, parecia acompanhar a adolescência do artista: mesmo com todo o furor do reencontro, as pessoas ainda mantinham alguns receios ao se aproximarem umas das outras e tirarem as máscaras para beber cerveja ou fumar paiol. Mas com Kaike, não há sem-graceza que perdure, como você confere a seguir.







Me conta como foi esse rolê da Duda Beat te descobrir!?



Esse rolê foi muito do doido. Eu sempre gravei covers e postei no YouTube. Depois, eu comecei apostar no Instagram. E o primeiro cover que eu postei lá foi visto pela Duda Beat! Era aquela faixa Bédi Beat. Ela me seguiu e várias pessoas legais começaram a me seguir também!

E eu tava tão triste até então, porque a Duda tinha vindo para o Sarará. Seria o primeiro festival que eu iria. Minha mãe não pode ir comigo, pedi ajuda à mãe de uma amiga. Antes do show da Duda Beat com a Pabllo Vittar, a mãe dessa amiga passou mal e não pudemos ficar. Pouco depois eu gravei essa cover, postei no Instagram e a Duda viu! Eu gritei tanto! Aí comecei a gravar mais covers.

No festival Sensacional, eu já era friend da Duda Beat. Rolou esse encontro! Fiquei vendo tudo lá na frente, cantei todas!



Ir a um show é o que me dá mais saudade nessa vida! Fácil!



Ou e o pior é que eu só fui a três festivais. Quando eu tava enganchando nesse rolê de festival, veio esse trem aí. Eu tava ansioso pra ir a todo festival, sabe essas coisas bem adolescente, teen? Eu espero que role logo!


Como tem sido ser um jovem de 15 anos vivendo a pandemia no Brasil?


Olha, querendo ou não, é meio difícil, mas não tanto, porque eu sei dos meus privilégios. Tento ao máximo não ficar louco com as notícias e não ficar preso no que tem acontecido de ruim. Mas estou criando bastante. Tem sido complicado, porque tenho que ajudar meu irmão mais novo, o Lucas, com as lições da escola. A escola remota tem sido difícil [Kaike e o irmão são alunos da escola pública, filhos de um pai pedreiro e de uma mãe que, atualmente, está em busca de oportunidades]. Mas tenho me focado em compor bastante.







E como anda o processo criativo por aí?


Em agosto, eu fui à Brasília e fiquei 15 dias por lá gravando trabalhos novos. A gente já tinha as músicas escritas, a composições prontas. Batidas e beats redondos. Era só gravar a voz. E aí a gente tirava um dia pra gravar cada faixa. Foi um processo bem diferente da gravação dos singles — pra eles, a gente só tinha uma semana pra gravar seis faixas e produzir vídeos pra elas. Como pessoa e com a equipe, evoluí bastante; pude aprender mais sobre direção e gravação. Foi uma experiência mais gostosa e divertida.
Nessa última imersão, a gente gravou um clipe para “Lago, Rede e Sol”. Quem produziu foi Disstinto e quem remixou foi o Suarez. Escolhemos essa como single porque ela fala muito sobre distância nessa quarentena.



E quais foram as referências pra esse single?



Pra “Lago, Rede e Sol”, o que me inspirou foi uma tarde em que eu estava na casa da minha prima. Eu estava marretando atrás de ideias, balançando em uma rede, rs. A música fala como tem sido duro amar de longe, vivendo esse distanciamento. Tem sido difícil se comunicar, criar novas rotinas. Eu me inspirei muito nisso, na dificuldade e no amadurecimento de relações nesses meses. Por isso, imaginei esse cenário perfeito, onde há esse encontro entre essas duas pessoas. Tem um tom de esperança.














É engraçado você contar que você tava numa rede, tomando sol e isso te inspirou. Eu tenho a impressão que esse período nos aproximou muito do universo íntimo das pessoas. Como anda o espaço íntimo de Kaike e a vontade de extrapolar esse universo?


Mesmo sendo um artista de quarentena, tenho pensado muito nesse período em que tenho estado em casa e como eu ainda não explorei essa cidade. Era pra eu estar nesse processo. A quarentena tirou muito do que eu podia estar vivendo. Então, dentro de casa, meu processo foi imaginar cenários, onde eu poderia estar. Em qual lugar eu estaria? Também tenho olhado pra dentro, pra entender o que eu quero.

E onde você queria estar?


Ah, eu queria estar num festival, cantando, num show bem cheio!


E você já tá se preparando pros festivais que vêm aí?


Sim, já estou conversando com minha mãe! Estarei no Breve, no Sarará. Vai ser tudo!






Que artistas têm te inspirado?



Olha, inspiração maior não tenho não, minha maior inspiração sou eu mesmo [YEEEEES!]. Mas tudo o que ouço ao meu redor é inspiração! Tudo o que me constrói como pessoa me inspira. Tenho escutado bastante Marina Sena. Ana, por tudo, de primeira, de primeira! Tenho ouvido bastante o último EP da Tasha & Tracie, as meninas arrasaram demais. A Rosalía lançou uma música com a Tokischa, e tenho ouvido bastante, e acho que ela vai bombar!

Tem um novo artiste que tenho ouvido muito, o Totô de Babalong. O visual dele é incrível! E tem a Rachel Reis, da Bahia, que é MARAVILHOSA! Ficamos bem amigos. E de fora tem o Lil Nas X, né?


Como estão as aulas de violão, e a dança? 



Tô aprimorando, voltando aos poucos com algumas coisas que deixei pendentes em meu passado, como a aula de dança e violão. Caramba, falei CHIQUE! [risadas] Eu tenho feito aulas de violão toda quarta e tenho crescido muito com meu professor. E com a dança também. Eu espero que em breve possa entrar numa escola. Tenho dançado muito aqui em casa.


Como estão as expectativas para o pós-vacina?


Quero que chegue logo, pelo amor de Deus, em nome de Jesus! Depois da minha segunda dose, eu só quero fazer show. Também quero muito ir a sessões de estúdios com artistes que eu gosto, pra trocar inspiração e conhecimento. Quero logo ir pra praia também!


Chegar e cair no mar, né?



Como diz a Marina né? Esse álbum da Marina, gente...Era pra eu estar na praia!



Carnaval, pouca roupa, purpurina!?


É sobre isso! É isso.


As ações do governo têm te atrapalhado de sonhar?


Mesmo com tudo que tem acontecido no Brasil, não. Sou bastante leigo no assunto, mas acompanho notícias de política. Tenho um pouco de medo sim, mas também tenho muita esperança. O Brasil vai sair dessa, no ano que vem já posso votar, rs. As coisas vão voltar aos trilhos e esse irresponsável vai sair daí. O mundo tá acabando, mas tem saídas. E eu vou fazer meus shows! Se não for neste mundo, a gente faz em outro.

︎



O single “Lago, Rede e Sol”, produzido por Disstinto, já está em todas as plataformas de streaming e, em outubro, a música ganhou um vídeo dirigido por Pedro Lemos. Se é pra celebrar o renascer deste mundo ou o nascimento de um próximo, aí a gente já deixa por conta do Kaike.





Mjournal Ed.008-Realidade é uma lacuna dos sonhos.