CARTA ABERTA



Igi  Lola Ayedun ︎



CAPA 001
CADERNO MODA BR  1003, HAIGHT

Fotos :  Mylena Saza  

Styling: Camila Vaz Modelos: Weslley Baiano y Gzebel (Another)

CAPA 002
AINDA ESTAMOS AQUI, 2020, serie
Fotos: Ivan Erick Styling: Alexandre Dornellas 
Beleza: Janaína Marques (Fernanda Sá) Manicure: Elyane Oliveira
Assistente de Produção de Moda: Lucas Rodrigues
Tratamento de Imagem: Philipe Mortosa
Modelo: Thalita Farie  (Viva)


CAPA 003
SOZINHA NÃO DÁ, 2019, fotografia 
Helen Salomão

Direção de  design gráfico
João Pedro Nogueira

Portas trancadas, fronteiras abertas.


AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!! Eu queria fazer um panorama do mundo mas só o fato de lembrar dele agora me causa uma vontade súbita de gritar. Quem imaginou que 2020 seria assim? Tá, talvez a melhor pergunta seria: quem projetou para que 2020 fosse assim? Óbvio que, enquanto há pulsões de otimismo a fim de construir uma válvula de progressismo econômico para as próximas gerações, estar nesse exato momento, aqui, no sul global, mais especificamente América Latina y, ainda, mais precisamente no Brasil faz com que a noção da profundidade dos problemas do mundo estejam explicitamente mais visíveis. Existe uma neblina branca 80% de opacidade que causa cegueira entorpecendo as Américas y não há passo adiante, sem risco.

Desde pequena, sempre tive muito medo de descer a serra para ir à praia. Sempre tive medo dessa neblina tão branca. Não enxergar com nitidez é constantemente motivo para mini-pânico. Tudo bem, deve ser por conta do meu espectro ocular limitado, ou pela exatitude requerida pelo ascendente y lua em Virgem ou, até mesmo, por ser educada a desde sempre entender o valor das coisas antes de botá-las em cheque, antes de jogá-las no vazio. Entretanto: que marofa, hein, planeta Terra?

Passamos os últimos meses vivenciando levantes globais da luta popular anti hereditariedades colonialistas. Muitos falaram sobre culpa, responsabilidade, igualdade, liberdade y reparação. Potencializado pelas redes sociais, a voz do povo racializado se tornou um fogaréu de enunciações reencarnadas entre todo um histórico centenário de resistência. Pela primeira vez, aceitei a beleza da euforia coletiva com tranquilidade pois era impossível não enxergar em cada chama um pedacinho de muitos dos nossos medos.

A crise da norma ainda não acabou. Hoje, por mais que tenhamos já repertório aspiracional o suficiente para mais 50 anos de indústria cinematográfica entre invasão de gafanhotos, ciclones, pandemia y recessões econômicas, há muito o que reconstruir a partir de tantas cinzas. Questionar incessantemente qual é o nosso lugar de existência nas projeções de futuro desse mundo se tornou o grande ponto de recomeço.

Existem certos comportamentos y reações que podem ser dados como cíclicos na história da humanidade. Contudo, quando deixo de priorizar a narrativa ocidental, não consigo me desapegar da ideia de continuidade ao revisitar a essência do saber de nossos ancestrais. Agora, nesse exato momento do mundo, ouço todos as preces acumuladas em mais de 500 anos submergindo a gravidade do planeta com cânticos polifônicos de libertação. Sinto toda a energia das águas dos oceanos, entre tantas travessias (considere: tantas travessias!), temperando, aos ventos, a força de cada um de nossos movimentos. Vejo, também, todas as almas y genealogias que carregamos cabendo em nossos corpos, tomando posturas de conforto, grandiosidade y lucidez, y, compreendo um novo entendimento do tempo y composição sobre o que se é viver. Ainda estamos aqui.

Tempo de colheita. Hora de existir.








INDÚSTRIA TÊXTIL



Gabriela Campos︎



Imagem: Issey Miyake, 1999.

E agora? Já estamos no futuro?


Mudança vai, mudança vem e os tecidos sempre presentes para designar como e o que queremos do futuro. Se hoje presente e futuro estão mais que juntos, o que podemos esperar dos novos materiais têxteis pós-pandemia?

A constante atualização das perspectivas de tempo, proporcionada por agentes transformadores diversos, desenham uma movimentação do mundo em direção ao futuro. Esses processos de transformação da estrutura, mesmo em diferentes períodos da história, encontram na evolução dos têxteis o plano de fundo perfeito para materializar novos horizontes. O agente da vez, a pandemia COVID-19, que dá a sensação de que estamos vivendo o futuro aqui e agora [com trabalhos remotos, novas perspectivas de entretenimento…], não trataria diferente nossa relação com os tecidos.

As recomendações da OMS quanto ao uso de máscaras faciais como uma das maneiras de prevenção do Coronavírus, ampliaram a discussão em torno da hiperproteção de maneira individual e dos materiais mais adequados para isso. Ao passo que alguns fabricantes adaptaram suas estruturas, como na Índia, para passar a fornecer tecidos antimicrobianos já conhecidos a fim de driblar a crise do setor, outras empresas, como na França, em Israel e no Brasil, têm desenvolvido novos processos têxteis para garantir eficiência dos materiais de proteção individual. No Brasil, as pesquisas andam em estágio bem avançado: a Diklatex, empresa catarinense, em parceria com o Cetiqt-SENAI, desenvolveu o Truelife Shield Antiviral. O tecido carrega nas fibras um combinado de ativos químicos que, em testes feitos pelo laboratório Bio Manguinhos/Fiocruz, é capaz de inativar determinados tipos de vírus, como do Sarampo e da Caxumba. Os testes em relação ao novo coronavírus estão em fase final e devem ser concluídos nos próximos dias. Em São Paulo, a Nanox, decidiu testar a eficácia de micropartículas de prata contra o coronavírus que, até então, eram fornecidas pela empresa para desenvolvimento de tecidos de roupas antiodores. Os testes estão em andamento pela USP e a empresa já entrou com pedido de patente da tecnologia. E sobre a inserção de metais em fibras têxteis, tem rolado uma ampla discussão acerca da produção de máscaras usando cobre, já que desde 2008 suas propriedades antibacterianas são reconhecidas. Mas ao contrário do que foi pensado e divulgado, já se comprovou para que máscaras e/ou tecidos serem efetivos de fato, cada fibra precisaria ser tratada com o metal e isso tornaria os produtos caros e incapazes de serem utilizados, segundo as diretrizes da CDC.

Sob a ótica do vestuário, encontramos propostas em que as práticas de futuro estão diretamente ligadas à sustentabilidade. Stella McCartney, já conhecida por seguir diretrizes sustentáveis em suas criações, comprometeu-se a remover por completo o uso do nylon virgem até o final de 2020 e já vem implementando o uso do ECONYL (fio de nylon 100% reciclado a partir de redes de pesca e carpetes) gradativamente nas suas coleções. A marca trouxe também, no início deste ano o dito primeiro jeans biodegradável do mundo. E por falar em jeans, a Jeanologia, indústria de maquinários para beneficiamento do tecido, desenvolveu uma nova tecnologia de sanitização que promete eliminar o coronavírus das superfícies têxteis sem o uso de aditivos químicos. Com os estoques de tecidos recicláveis comprometidos pelos próximos dois anos, algumas alternativas já amplamente discutidas, como as roupas de cânhamo, se estruturam no mercado. A DRIHP conta que a produção da fibra usa cerca de 1/20 da água utilizada necessária para crescer e processar tecidos de algodão tradicionais. Além disso, um hectare de cânhamo produz mais O2 que 25 acres de árvores e alteraria consideravelmente o processo de conversão de CO2 em biomassa. Na mesma pegada, a Levi’s tem como objetivo em até 5 anos, criar peças 100% cânhamo, com a mesma maciez do algodão empregado na fibra convencional do jeans. Uma outra possibilidade na busca pela sustentabilidade e consequente substituição do algodão, vem da startup Mi Terro, que transforma em fibra a caseína extraída do leite produzido em excesso, através de biotecnologia.
As marcas de materiais esportivos seguem desenvolvendo projetos que adicionam processos sustentáveis à produção de itens de alta performance. A exemplo do que começou em 2015, em parceria com a Parley for the Oceans, a Adidas, que produziu artigos de alta performance a partir de plástico reciclável retirado dos oceanos, cria em comemoração aos 5 anos da parceria, a tecnologia Primeblue que contém no mínimo 40% de plástico retirado dos oceanos em sua composição. E seguindo os mesmo passos, a Puma também estabeleceu diretrizes de sustentabilidade com a coleção “Design to Fade”. A terceira, da série de coleções que vêm sendo lançadas desde 2016, visa impactar em uma perspectiva 360º - de matéria prima aos métodos de produção - a criação dos produtos da linha. A coleção lançada recentemente conta com a tecnologia Streamateria, que consiste em peças de vestuário construídas a partir de estruturas de malha impressas e revestidas com bioplástico. A The North Face, conhecida pela busca por apresentar soluções que forneçam alta performance em termos de adaptabilidade, lançou a tecnologia FUTURELIGHT, que promete uma excelente proteção contra água, sem comprometer e reduzir a respirabilidade. Enquanto isso na Universidade de Manchester, foi desenvolvida a  pesquisa sobre uso de nanopartículas de grafeno nas roupas, visando a diminuição da temperatura corporal através das ondas eletromagnéticas emitidas pelo próprio corpo.

Além da busca por práticas ecologicamente corretas no que tange uma das indústrias mais poluidoras do mundo, a autoproteção sempre esteve entre os principais objetivos das inovações têxteis e o monitoramento é mais um fruto dessa necessidade de hiperproteção/hipervigilância que o coronavírus intensificou. Segundo o recente relatório divulgado, outras condições impostas pela pandemia permitiram o crescimento do mercado de tecidos tecnológicos [E-textiles e Smart Textiles], como a queda no preço dos tecidos, por exemplo. Essa face dos novos materiais têxteis expande os horizontes para além do vestuário: o Laboratório de Materiais Fotônicos e Dispositivos de Fibra da École Polytechnique Fédérale de Lausanne, desenvolveu uma nova tecnologia sensorial que é capaz de detectar qualquer tipo de alteração em diferentes tecidos do corpo e gerar uma comunicação mais segura e efetiva com robôs. Essa atualização dos sensores já conhecidos, que capta os sinais através de pulsos elétricos, está pronta para ser incorporada em superfícies que permitem uma maior mobilidade: como lençóis hospitalares que poderão monitorar de forma geral os sinais vitais do um paciente, por exemplo.

Considerando que não fazem seis meses que as contaminações pelo Coronavírus atingiram o status de pandemia, a indústria já está nos deparando com diversas alternativas e inovações capazes de mudar drasticamente como consumimos tecidos em suas diversas aplicabilidades. Declaradamente o futuro aqui e agora. E de normal, ele não tem nada.





HISTÓRIA DA MODA



Wanessa Yano ︎



Imagem: Mama Casset 

Nem só de estampa colorida é feito o tecido Africano.


O pensamento colonial nos fez perder a percepção da identidade cultural africana.  O principal modus operandi do colonialismo é fazer com que os colonizados criem uma certa fobia para as culturas que não fazem parte do circuito intelectual eurocêntrico, sustentado pelo conceito de hierarquia das raças, que foi utilizado para legitimar os seus feitos xenofóbicos. Esta estratégia de amplitude mundial permitiu consolidar narrativas pejorativas sobre os africanos e os demais povos, que até hoje são entendidos como primitivos, fazendo com que as suas filosofias, cosmologias, tecnologias, engenharias, entre outros processos culturais fossem desacreditados, e menosprezados até os dias de hoje.

Recolocar os fatos na história através de uma perspectiva decolonial, nos permite humanizar estes povos que tiveram suas vidas e concepções anuladas. Este é caso do legado africano, que foi negligenciado como precursor na fabricação têxtil no mundo. Tendo o seu espaço geográfico desfragmentado, dando a ideia de que alguns países ao norte e nordeste, como o Egito, e Marrocos não pertencessem a este continente, desta forma invalidando os processos têxteis tecnologicamente avançados desde o surgimento do homem. Uma vez em que os processos de tecelagem já eram conhecidos desde o início do Neolítico cerca de -5000 a.c onde resquícios de tecelões foram achados na região do Cartum atual capital do Sudão.

Com o advento da agricultura poderemos encontrar neste mesmo período o início da fabricação têxtil do linho, e do algodão. Por isto é válido afirmar que os primeiros tecidos africanos são o linho e, o algodão, que serviram, e ainda servem como base para diversos outros processos como por exemplo o papiro que foi produzido séculos mais tarde. Além dos processo de plantar, colher, fiar, o tingimento natural também foi introduzido no mundo pelos africanos, a partir da planta indigoferia tinctoria, conhecida como o índigo, o azul do mundo. Os povos da África ocidental, dominavam muito bem os processos têxteis antes mesmo dos Europeus que só pisaram no continente africano em meados do século 15.  Inicialmente as importações para o Brasil eram tradicionais, dentro destas incluem-se os tecidos tradicionais africanos. Por isto que no Brasil no século 16 - 17 muitos africanos da parte ocidental foram direcionados para as lavouras de algodão por suas habilidades com a matéria prima.

No Brasil uma das primeiras matérias primas a serem tecidas e utilizadas para vestuário foi o Algodão. Confeccionado de forma grosseira para roupas das pessoas em situação de escravizados. Os homens se vestiam com calça, camisa, casaco e cobertor, as mulheres com saias, camisa, e xales. Este vestuário se manteve vivo dentro das culturas africanas de resistências, como as Irmandades, o Candomblé, a capoeira, o samba de roda e entre outros. Eram os próprios africanos que confeccionavam suas vestes, principalmente os que se encontravam na roça, pois além de produzirem seus vestuários ainda vendiam o algodão em pequenas quantidades. Uma curiosidade sobre o algodão é que as mulheres que eram pegas no laço ( Estupradas) consumiam as sementes  como abortivo.

Os teares presentes no Brasil eram de origem africana, exportados desde o final do séc 18 da nigéria para a Bahia, que tempos depois continuou com a produção dos panos da costa, e este foi um conhecimento guardado em segredo e passado de gerações a gerações, assim como a cultura do Índigo no Brasil. No Século 19 o algodão fazia parte das mercadorias de maior produção e  exportação do Brasil, ao final do século 19 o Brasil já possuía fábricas conhecidas como “ Fábricas de tecer” mantidas por mãos pretas. A riqueza gerada através da escravidão foi marcada pela plantação, e tecelagem do algodão, pois este era um dos produtos de grande valia para exportação. No século 21, atualmente mesmo com Covid -19, e a praga de gafanhotos, o mercado agrário brasileiro aposta no algodão. O oeste da Bahia promete safras rentáveis, desde a última colheita de 1,6 milhões de hectares.

Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) mesmo durante a pandemia a produção de algodão não teve pedidos cancelado, apenas o aumento no prazo para a entrega do produto. Mesmo com o mercado agrícola em queda o Brasil já exportou cerca de 2 milhões de toneladas de algodão até junho deste ano. A Anea estima que a exportação de algodão alcançará a marca de 50 mil toneladas. A exportação de algodão no brasil bate o seu recorde de registros de embarque em 2020. A indústria têxtil parece ansiosa para 2021, e quem paga o preço por isto? Nós já sabemos bem. Uma vez em que as suas áreas de cultivopermanecem quase que intactas desde meados do século 16.




MJOURNAL ED.003 - PORTAS TRANCADAS, FRONTEIRAS ABERTAS.